Tempos de Repressão

 

Em 1977, José Goldemberg viveu um dos episódios mais dolorosos de sua vida durante a ditadura militar. Seu filho Clóvis Goldemberg, então estudante do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e diretor cultural do centro acadêmico, foi acusado de difundir ideias consideradas subversivas. Aos 23 anos, foi preso e levado ao DOI-CODI de São Paulo, onde sofreu agressões e sessões de tortura.

Depois de passar pelo principal órgão de repressão do Exército, Clóvis foi transferido para a Base Aérea de Cumbica, em Guarulhos, onde permaneceu sob custódia da Aeronáutica e recebia visitas frequentes do pai. Indignado com a violência praticada pelo Estado, Goldemberg apresentou sua renúncia ao cargo de diretor do Instituto de Física da USP. Convencido por colegas, pelo reitor da Universidade e pelo governador do Estado de que sua permanência seria mais importante para a instituição, acabou retirando o pedido e seguiu à frente da direção.

Clóvis permaneceu preso por cerca de um ano. Expulso do ITA, foi acolhido pelo médico e reitor Zeferino Vaz na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde concluiu a graduação. Décadas mais tarde, faleceu, em 2009, aos 55 anos, após enfrentar um câncer.

 
 
 

Para José Goldemberg, o acordo nuclear firmado entre Brasil e Alemanha Ocidental representava uma oportunidade perdida para o desenvolvimento científico brasileiro. Embora defendesse que o País dominasse a tecnologia nuclear, criticava um modelo que mantinha o Brasil dependente de conhecimento e equipamentos estrangeiros, sem assegurar uma efetiva transferência tecnológica. Em sua avaliação, a comunidade científica nacional foi excluída de um projeto que deveria fortalecer sua própria capacidade de pesquisa e inovação.

Nos anos seguintes, parte da busca por autonomia tecnológica deu origem ao chamado Programa Paralelo, conduzido sob sigilo pelos militares. Goldemberg reconhecia a importância de o Brasil dominar o ciclo do combustível nuclear, mas sempre sustentou que esse conhecimento deveria servir exclusivamente a fins pacíficos. Para ele, o desenvolvimento científico impunha uma responsabilidade ética inegociável: impedir que a tecnologia nuclear fosse convertida em instrumento de destruição.

Anos mais tarde, Goldemberg passou a afirmar que, se o regime militar tivesse conseguido desenvolver uma arma nuclear, a transição democrática poderia ter sido muito mais difícil. A posse desse tipo de armamento teria ampliado significativamente o poder político e militar do regime, prolongando sua capacidade de repressão.