Tempos de Repressão

 

Em 1977, José Goldemberg vivenciou a demonstração de poder do governo militar em voga desde 1964 no Brasil. Seu filho Clóvis Goldemberg, estudante do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e diretor cultural do centro acadêmico, foi acusado de propagar ideias comunistas e “anti-revolução”. Clóvis, que tinha por volta de 23 anos na época, foi preso, agredido e torturado no DOI-CODI em São Paulo. 

Após o período no órgão do Exército, o estudante ficou sob a guarda da Aeronáutica, em Cumbica (Base Aérea de São Paulo, em Guarulhos), onde recebia visitas periódicas do pai. Em represália à prisão do filho, Goldemberg abriu mão de todos os cargos públicos que estava associado, em uma tentativa de manifestar sua insatisfação com o governo militar e as ações de repressão tomadas por ele. Clóvis Goldemberg foi solto após um ano de prisão. Expulso do ITA, foi realocado pelo médico e reitor Zeferino Vaz na Universidade de Campinas (UNICAMP), onde completou sua graduação.

Com apenas 10 anos, acompanhado o pai que lecionava na Universidade de Paris, Clóvis foi reconhecido na escola como excelente candidato para a École Polytechnique. “A Escola Politécnica foi criada pelo Napoleão para formar a elite francesa, e é assim até hoje”, conta José Goldemberg, orgulhoso pela notável trajetória intelectual do filho. O retorno da família ao Brasil não deixou a desejar no que tange a formação, Clóvis passou pelo ITA, UNICAMP e finalizou a carreira como professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). 

Clóvis, o primeiro a ser preso e último a ser liberado, faleceu aos 55 anos, em 2009, após dois anos de luta contra um câncer. A família compartilha suas memórias com orgulho. As filhas Diana e Flora descrevem os momentos de dor durante a Ditadura Militar, mas a memória mais tenaz deixada pelo pai é de resistência e justiça. 

 
 
 

O Acordo Nuclear Brasil–Alemanha, assinado em 27 de junho de 1975, foi um tratado de cooperação entre o governo brasileiro, do general Ernesto Geisel, e a então República Federal da Alemanha, governada por Helmut Schmidt. Seu objetivo era permitir que o Brasil desenvolvesse um programa nuclear completo, dominando todas as etapas do ciclo do combustível nuclear. Na prática, previa a transferência de tecnologia e uma infraestrutura industrial estrangeira.

Para José Goldemberg, alimentado pelo desejo nacionalista de progresso científico, o acordo nuclear assinado com a Alemanha era uma afronta aos cientistas nacionais, que foram barrados do projeto. Dessa forma, o Brasil não teria o domínio da tecnologia para o enriquecimento do urânio, assim como para a produção de usinas. O país estava dependente de modelos importados das grandes potências. 

Tempo depois, o elemento nacionalista de valorização da pesquisa nacional foi apropriado pelos militares e daria origem ao Programa Paralelo, colocando o enriquecimento de urânio em campo perigoso e ambíguo, na avaliação de Goldemberg. Sua posição, assim como a de outros colegas de profissão, sempre foi clara: eles se colocaram veementemente contra a utilização dessa tecnologia para fins não pacíficos. Trabalhar com energia nuclear leva a ciência a contradições inatas ao processo. 

Seu posicionamento aberto na imprensa acerca do desenvolvimento Programa Nuclear Brasileiro chamou atenção dos órgãos de repressão. O Sistema Nacional de Informações (SNI) passou, então, a investigar publicações e até mesmo viagens do professor. A espionagem rendeu um dossiê disponível hoje no acervo Arquivo Nacional, liberado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) em 2012, que disponibilizou centenas de documentos do período da Ditadura Militar para acesso público. Na época, José Goldemberg foi ameaçado com esse mesmo dossiê por membros do exército durante o episódio da prisão de seu filho Clóvis.

Se, naquele momento, os militares tivessem alcançado o objetivo de construir uma arma nuclear, o regime não teria terminado em 1985, pondera José Goldemberg. O domínio da energia nuclear seria uma forma de manutenção do brutal poder militar. Hoje o Brasil conta com as usinas Angra I e II, e o projeto de Angra III com mais da metade das obras concluída. As outras seis usinas propostas no Acordo nunca chegaram a ser construídas.